Reciclagem não é a solução

Reciclar pode parecer o o máximo, mas aqui relembramos um ditado comum na Permacultura: se a solução cria um outro problema, não é a solução!

Em diversos posts aqui, manifestamos que os 3Rs da reciclagem não bastam, precisamos de 5Rs. Acrescente 2 Rs para:

REPENSAR –  por que este produto vem em plástico? por que comprar? por que eu como consumidor não manifesto minhas necessidade de colaborar com a Natureza?

RECUSAR  –simplesmente, um “não, obrigado” ou um big NÃO com campanhas nacionais para determinado produto, ou um 1800 não – uma simples ligação para o SAC dizendo eu não vou comprar mais este produto porque vem em embalagens plásticas!

O recém caso tragicômico do lixo inglês em busca de um porto seguro em solo nacional dá uma demonstração que reciclar só e somente não é a solução.

Vale a pena citar algumas matérias como sobre reciclagem, como a da semana passada na Vejinha São Paulo, “Nossa reciclagem é um lixo, mas tem soluções”; e “Recilar não basta” da Elaine Patricia Cruz para a Agência Brasil – onde abordam fatores associados ao nosso sistema de reciclagem.

Leia na íntegra: você pode optar por uma leitura dinâmica abaixo, onde está em verdito pontos que achamos importantes ou clicando nos links acima.

Nossa reciclagem é um lixo, mas há soluções

Por Daniel Nunes Gonçalves, publicado na Revista Veja São Paulo

A coleta seletiva de São Paulo está estagnada: representa apenas 1% das 15 000 toneladas de resíduos que a prefeitura recolhe diariamente. Especialistas indicam como mudar esse cenário

Fernando Moraes
Unidade de triagem da Coopere, no centro: renda menor com a crise econômica
Unidade de triagem da Coopere, no centro: renda menor com a crise econômica

Reduzir, reutilizar e reciclar. É raro quem nunca tenha ouvido a recomendação para usar o princípio dos “três erres” na hora de consumir e dar um destino ao lixo que produz. A popularização da palavra sustentabilidade fez crescer a consciência ambiental e tem estimulado os paulistanos a fazer sua parte. Donas de casa vão aos mercados carregando sacolas de pano para não precisar gastar sacos plásticos, profissionais pensam duas vezes antes de imprimir seus e-mails, e nas escolas as crianças aprendem a separar papéis, latas e plásticos naqueles simpáticos cestinhos coloridos. A boa vontade da população, porém, não é suficiente para resolver um dos maiores problemas de metrópoles como São Paulo: o destino de seus resíduos. Apenas 1% das 15 000 toneladas de lixo produzidas diariamente na cidade passa pela coleta seletiva da prefeitura. Se levássemos em conta somente os detritos domiciliares que podem ser reaproveitados, esse número subiria para 7%. Muito pouco.

Os setenta caminhões de coleta seletiva da administração municipal atendem cerca de 20% dos moradores da capital. Muitos paulistanos tomam o cuidado de separar metais, vidros, plásticos e papéis naqueles cestos coloridos. Perda de tempo, já que esses materiais são jogados no mesmo caminhão e divididos só depois, em centros de triagem. Portanto, basta separar o lixo em dois sacos: um para rejeitos comuns, que vão parar em algum dos três aterros sanitários usados pelo município; e outro para recicláveis. Vale, claro, dar ao menos uma enxaguada para que restos de alimento não atraiam insetos.

Os caminhões de lixo reciclável da prefeitura, que carregam 140 toneladas diárias, passam em dias diferentes dos veículos de coleta comum. Duas concessionárias, Loga e Ecourbis, são responsáveis por 60% do serviço. O restante fica por conta de caminhões-gaiola de quinze cooperativas de catadores cadastradas pela administração municipal. Com 964 associados, elas são responsáveis também pela triagem de tudo o que é recolhido. Os 8,8 milhões de paulistanos que moram fora da rota desses veículos têm, caso queiram reciclar, de contatar cooperativas independentes ou se dar ao trabalho de levar, no porta-malas do carro, seus dejetos a pontos de entrega voluntária espalhados por empresas privadas, como os sessenta supermercados da rede Pão de Açúcar e os treze da Wal-Mart.

Quando comparado com os sistemas de coleta seletiva de capitais como Curitiba e Porto Alegre, que existem há duas décadas e atendem 100% da população, o atual programa paulistano, vigente desde 2003, é vergonhoso. “Acho lastimável que a metrópole que mais produz lixo na América do Sul não tenha políticas públicas de administração de resíduos sólidos compatíveis com o século XXI”, afirma Elisabeth Grimberg, coordenadora de ambiente urbano do Instituto Pólis, ONG que atua na área. “É inadmissível que apenas 1,5% dos 760 milhões de reais do orçamento anual da Secretaria de Serviços para o lixo seja destinado à coleta seletiva.” Segundo Elisabeth, 30% de tudo o que é rejeitado poderia ser reciclado, o que representaria uma economia anual de mais de 9 milhões de reais. “Sabemos que os números atuais estão aquém do ideal, mas estamos trabalhando para melhorá-los”, diz o secretário de Transportes e de Serviços, Alexandre de Moraes. Ele lembra que o orçamento previsto para a coleta seletiva neste ano, 11,8 milhões de reais, é o dobro do destinado em 2008.

O que fazer com o lixo não é uma questão que aflige apenas os paulistanos. Trata-se de uma preocupação mundial. Para se adequarem a leis ambientais cada vez mais rígidas, várias cidades ricas do mundo mandam seus rejeitos para fora. Mais de 80% do lixo de São Paulo já tem como destino os municípios de Caieiras e Guarulhos. Com o objetivo de evitar a proliferação de lixões antiecológicos, os aterros sanitários contam com tratamento para o refugo tóxico. Mas a capacidade desses espaços é limitada, e só uma reciclagem eficiente diminuiria a quantidade de detritos a ser enviados a eles. Para piorar, a recente crise econômica afetou as cooperativas de coleta e triagem. “O preço do papelão, das garrafas PET e das caixas longa-vida que vendemos para os recicladores caiu pela metade”, diz a ex-vendedora ambulante Olinda da Silva, coordenada da Coopere, no centro. O quilo de latas de alumínio caiu de 3,80 para 2 reais, enquanto o quilo de jornais e revistas passou de 20 para 10 centavos. Como os catadores não têm salário fixo, muitos abandonaram o trabalho para viver de bicos. O número de cooperados cadastrados na prefeitura diminuiu 15% de julho de 2008 para cá. “Há um ano, eu ganhava 1 000 reais por mês. Agora, está difícil tirar 600 reais”, queixa-se Olinda.

A queda no número de catadores teria refletido diretamente na qualidade da coleta. Muitas pessoas voltaram a jogar o que poderia ser reaproveitado no lixo comum. “Com isso, os aterros receberam 10% a mais de recicláveis”, afirma Cícero Yagi, integrante do Movimento Nossa São Paulo. Para evitar que isso acontecesse, a Coopamare, de Pinheiros, ficou com seu galpão lotado de materiais. “Alguns cooperados desistiram de trabalhar e os recicladores passaram a comprar menos, mas não queremos parar de atender nossos quarenta clientes”, conta a ex-doméstica Maria Dulcinéia Santos. Sem equipamentos nem contas pagas pela prefeitura, o grupo é uma das cooperativas independentes da cidade. Estima-se que existam aqui mais de 100 delas e 20 000 catadores. A prefeitura pretende incorporar, até o fim do ano, dez dessas cooperativas às suas centrais de triagem oficiais. “Vamos usar para isso uma verba federal de 6 milhões de reais”, promete o secretário Alexandre de Moraes. Com mais estrutura, acredita ele, as cooperativas poderão trabalhar melhor e garantir para si parte do lucro que hoje fica nas mãos de intermediários.

Os sinais de recuperação econômica dos últimos dois meses apontam para dias melhores. “Embora o primeiro semestre tenha sido difícil, a indústria voltou a comprar e os estoques das cooperativas começam a diminuir”, afirma André Vilhena, diretor executivo do Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre). “Felizmente, o Brasil tem capacidade para reciclar tudo o que produz, algo que não ocorre em vários países europeus”, diz. “Lá, apesar de haver uma grande coleta seletiva, a indústria recicladora não é desenvolvida.” São Paulo sente ainda o impacto do atraso na implementação da Política Nacional de Resíduos Sólidos, um projeto parado em Brasília há dezoito anos e que deve criar regras e diretrizes para que os próprios fabricantes sejam responsáveis pelo destino de seus produtos. “Leis municipais, estaduais e federais dificultam às indústrias e à população a compreensão do destino a ser dado a seus resíduos tóxicos, a exemplo de celulares e lâmpadas fluorescentes”, conta André Vilhena.

Em meio a tanta morosidade das políticas públicas, a sociedade civil faz sua parte. ONGs como o Cempre, o Pólis e o Instituto Gea atualizam sites com orientações sobre o que pode ser reciclado e como implantar a reciclagem em um condomínio, uma escola ou uma empresa. Além de receber 5 000 toneladas de recicláveis em 2008, o grupo Pão de Açúcar criou ainda os caixas verdes, para descarte de embalagens, em nove de suas lojas paulistanas. No primeiro semestre deste ano, nada menos que 83 000 caixas de creme dental e de sabonetes foram recolhidas logo depois de ser pagas. Os paulistanos mais engajados aderiram até a composteiras caseiras. “Transformo meus restos de comida em adubo para as plantas do jardim”, diz Nina Orlow, especialista em sustentabilidade, que fez toda a família se acostumar às minhocas necessárias para a decomposição do seu lixo orgânico. “É um pouco estranho, mas vale a pena saber que estou dando um destino ecologicamente correto aos meus resíduos.”

Fernando Moraes
Coletores de recicláveis esvaziam contêineres em Perdizes: prefeitura atende só 20% da população
Coletores de recicláveis esvaziam contêineres em Perdizes: prefeitura atende só 20% da população

Conheça a seguir algumas ideias de especialistas para que nossos materiais recicláveis deixem de ser tratados como lixo:

Investir na coleta e na triagem em larga escala
Presidente do Instituto Brasil Ambiente, o economista Sabetai Calderoni, autor do livro Os Bilhões Perdidos no Lixo, acredita que o método atual de cooperativas de pequena escala não funciona. “Temos de pensar na coleta seletiva como um negócio, permitindo ganhos maiores”, diz. A inspiração seriam cidades como Londrina e Curitiba, com 100% de coleta seletiva. “Com uma grande central de reciclagem, conseguiríamos reverter a lógica atual que destina dois terços do lucro para os atravessadores e a indústria, e que deixa apenas um terço do pagamento para os catadores.”

Profissionalizar as centrais de triagem
Como não tem salário nem direitos trabalhistas, quem trabalha para as cooperativas costuma abandonar o ganha-pão em momentos de crise ou diante de melhores remunerações, ainda que sejam bicos no comércio informal. “A reciclagem no Brasil precisa parar de ser subsidiada pela pobreza”, afirma Auri Marçon, presidente da Associação Brasileira da Indústria do PET (Abipet). Um caminho poderia ser o pagamento de salários fixos, como ocorre com os 103 empregados da única central de triagem de Curitiba, a Usina de Valorização de Rejeitos. Esteiras, balanças, prensas e toda a estrutura física são de propriedade do município, como nas cooperativas oficiais de São Paulo, mas a administração é centralizada por uma ONG, o Instituto Pró-Cidadania.

Educação ambiental com foco na periferia
Além de morar em áreas onde os caminhões de coleta seletiva não costumam chegar, a população de baixa renda é a que mais carece de educação ambiental. Para reverter esse quadro e acabar com os pontos viciados de desova de lixo, os chamados morcegões, a prefeitura de Curitiba criou 88 pontos de Câmbio Verde. Neles, 4 quilos de material reciclável podem ser trocados por 1 quilo de alimento – normalmente plantados por pequenos produtores da região metropolitana, que também têm seu trabalho estimulado pelo poder público. Com isso, a coleta seletiva da cidade atinge o total de habitantes: 1,8 milhão.

Mario Rodrigues
Caixas verdes do Pão de Açúcar do Butantã: as embalagens são recolhidas antes do consumo
Caixas verdes do Pão de Açúcar do Butantã: as embalagens são recolhidas antes do consumo

Incentivar a compostagem de orgânicos
Nada menos que 57% do lixo de São Paulo é formado por restos de comida. Se o chamado rejeito úmido tivesse um destino exclusivo, o volume de material descartado seria reduzido drasticamente. Para Elisabeth Grimberg, do Instituto Pólis, um bom caminho é o estímulo à criação de composteiras em restaurantes, parques e jardins públicos. “O adubo produzido poderia ser utilizado em hortas comunitárias.

Reciclar não basta

por Elaine Patricia Cruz, da Agência Brasil

…Coleta cresce, mas destinação ainda é problema

Apesar do crescimento em 2008 da coleta dos resíduos sólidos urbanos (RSU) no Brasil, quase a metade do lixo diário ainda tem destino inadequado, revela o estudo Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil, divulgado nesta segunda-feira (10/8) pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe).

De acordo com o documento, apenas 55% das 149,1 mil toneladas de resíduos sólidos urbanos recolhidas diariamente tiveram destinação adequada no ano passado. O restante, ou foi para os lixões ou para os aterros não-licenciados. O estudo mostra ainda um crescimento de 5,9% em relação a 2007 na quantidade de lixo urbano recolhido no país, em 2008.

“Neste mercado de meio ambiente, o que chamamos de destino correto são as centrais de tratamento de resíduos, conhecidos como aterros sanitários licenciados, que são preparados para receber os resíduos, sem contaminar o meio ambiente e o lençol freático”, disse João Carlos David, presidente da Abrelpe, em entrevista à Agência Brasil.

O destino do lixo hospitalar é mais um grave problema citado pelo documento da Abrelpe. Das 210 mil toneladas coletadas no ano passado, cerca de 80% não tiveram tratamento adequado, segundo Carlos David. “A gente só tratou adequadamente 23%, ou seja, o resíduo hospitalar, além de ser um problema para o meio ambiente, também é um problema de saúde pública porque ele acaba sendo transmissor de várias doenças”, afirmou.

O tratamento correto para os resíduos hospitalares, segundo explicou o presidente da Abrelpe, é realizado por meio de três diferentes tecnologias: a desativação eletrotérmica, micro-ondas e autoclave. Em alguns casos, pode também ocorrer a incineração antes deles serem levados levados para os aterros sanitários.

Para Carlos David, a responsabilidade sobre a destinação do lixo no país não ser apenas do poder público. Ela deve envolver também a sociedade. “A população consegue contribuir fazendo a sua parte, consumindo adequadamente e com consciência, sabendo separar os resíduos, não misturando os resíduos orgânicos, ou seja, não misturando a sobra de alimentos com resíduos potencialmente recicláveis como plásticos, vidros, papéis e latas”, disse.

O estudo revela ainda o crescimento da coleta seletiva. Ela já é feita em 56% dos 5.565 municípios brasileiros, e o da reciclagem de latas de alumínio, onde o Brasil aparece na liderança mundial, com 96,5% do total de latas comercializadas no país, em 2007, oriundas da reciclagem.

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