Energia Inteligente

A cidade de Boulder, no Colorado está fazendo o mundo pensar sobre as possibilidades de geração de energia – ela será a primeira cidade Smart Grid

Smart Grid é basicamente em poucas palavras uma maneira inteligente de usar a energia…modernizar a forma como a luz chega até a nossa casa e ajudar a limpar o planeta

Abaixo, artigo do Edson Porto publicado na Época Negócios e nós colocamos em negrito alguns pontos chaves……

Investimentos bilionários prometem transformar as redes de eletricidade no mundo, modernizar a forma como a luz chega até a nossa casa e ajudar a limpar o planeta. A questão é: em quanto tempo?

Se Thomas Edison retornasse à vida em pleno século 21, ficaria estupefato com os celulares, os computadores e o poder da internet. Mas teria uma grande familiaridade com a nossa rede elétrica. Afinal, ela não mudou muito desde que Edison inventou a lâmpada incandescente comercial, há 130 anos.

Isso só não seria verdade se ele visitasse a pequena cidade americana de Boulder, no Colorado. Até dezembro, Boulder terá a rede de energia mais sofisticada do planeta. O sistema será capaz de reconhecer uma falha antes mesmo de ocorrer e fazer o reparo automaticamente. Permitirá a integração de fontes renováveis de energia em grande escala e vai possibilitar que cada cidadão ou empresa escolha como consome sua eletricidade. Eles poderão comprar “elétrons” como adquirem planos de celular. O projeto – que está sendo implementado a um custo de US$ 100 milhões pela empresa Xcel Energy – é parte da maior revolução na maneira como se transmite, distribui e consome eletricidade no mundo. Uma revolução que iria espantar até o inventor Thomas Edison.

Em inglês, essa transformação foi batizada de smart grid – ou rede inteligente. Boulder, aliás, está sendo chamada de SmartGridCity. A principal ideia é que o sistema elétrico transporte, além de energia, informação. Hoje os sistemas existentes são classificados, sem nenhuma cerimônia, como burros. A estrutura foi construída para grandes fontes estáveis de energia (em geral, sujas), com o objetivo de levar eletricidade numa única direção: da geração em locais distantes até o consumidor final. Apesar de existirem o que os especialistas chamam de ilhas de automação dentro da estrutura, o fato é que quando acaba a luz em algum lugar, a empresa distribuidora só fica sabendo se um consumidor ligar reclamando. Para achar a falha, ela precisa mandar uma equipe a campo. O sistema tampouco sabe em detalhes como a energia é consumida, perdida ou roubada no caminho.

O smart grid propõe uma transformação profunda em tudo isso. “É uma mudança radical que poderá ter um impacto até maior do que a internet ou a telefonia celular”, afirma Cyro Vicente Boccuzzi, diretor executivo da Andrade & Canellas, consultoria especializada em energia. Para ser inteligente, uma rede precisa de sensores e comunicação integrada que permitam um monitoramento completo e constante do fluxo da energia. “Você passa a ver o sistema como se fosse uma indústria na qual todo o processo está automatizado”, diz Arnoldo Magela Morais, superintendente do projeto de redes inteligentes da Cemig (Companhia Energética de Minas Gerais). Além de monitorar, o sistema deve tomar decisões de forma automática e remota. A intenção é que seja possível desde ligar a luz de um consumidor a distância até ter softwares que redirecionem sozinhos a transmissão de energia nos cabos para evitar sobrecargas. “Um sistema assim poderia detectar o ponto exato de uma falha e levar a equipe até ele”, afirma Morais. “Além disso, ele permitiria manter ligadas áreas não afetadas por uma falha, para minimizar o número de atingidos.” Hoje, muita gente fica sem luz porque as distribuidoras têm de desconectar grandes áreas enquanto tentam descobrir exatamente onde ocorreu uma queda.

As companhias de energia não têm como saber nem sequer se o problema é mesmo delas. Dona do projeto em Boulder, a americana Xcel Energy diz que 40% das chamadas que recebe de consumidores reclamando de falta de luz são decorrentes de problemas na casa dos clientes. “Como hoje não temos como saber disso, somos obrigados a mandar uma equipe para checar”, disse Tom Henley, porta-voz da Xcel, a Época NEGÓCIOS. Com uma rede inteligente, os custos de manutenção devem cair, a qualidade do fornecimento melhorar e a estrutura ficar mais enxuta.

Na ponta do consumo, os medidores inteligentes também permitem inovações enormes. Na Itália, país mais avançado nessa área, a distribuidora Enel já instalou pelo menos 27 milhões desses medidores. Eles possibilitam uma checagem muito mais precisa de como a energia é usada, abrem caminho para novos tipos de cobrança e dão ao usuário controle sobre seu consumo. A Enel diz ter investido 2 bilhões de euros na instalação do programa ao longo de cinco anos (entre 2000 e 2005) e afirma ter conseguido economias anuais de 500 milhões de euros. O projeto é de fato bastante sofisticado, mas ainda é apenas uma parte da história.

O conceito mais amplo de sistemas inteligentes prevê que o consumidor possa escolher a fonte de sua energia (se eólica ou nuclear, por exemplo), que preço está disposto a pagar e até que a companhia de luz administre seu consumo em casa. Discute-se, inclusive, a possibilidade de cartões pré-pagos de energia. A pessoa pagaria pelo consumo básico, para alguns itens da casa, e tudo que passasse disso seria cobrado à parte – ou cortado. “Desenvolvemos um sistema que permite à concessionária até desligar remotamente aparelhos na casa do consumidor para que a conta fique no patamar estabelecido por ele”, afirma Elton Antonio Tiepolo, executivo chefe da área de Utilities da IBM Brasil.

BOOM TECNOLÓGICO

A ideia dos smart grids não é exatamente nova. Há pelo menos dez anos especialistas do setor debatem como novas tecnologias podem redesenhar o modelo existente. Mas uma conjunção de fatores está tirando esse debate da obscuridade técnica e os planos da gaveta. Como pano de fundo está o barateamento de tecnologias, somado às pressões por reduzir emissões de CO2 e à incapacidade de se produzir eletricidade suficiente para atender ao aumento da demanda global. O Foundation Capital, um fundo que já investiu US$ 150 milhões em energias limpas, calcula que o planeta consome atualmente 14 terawatts (cada terawatt corresponde a 1 trilhão de watts) de energia todos os dias. Em 50 anos, caso as tendências atuais se mantiverem, a expectativa é que seja consumido o dobro disso, ou 28 terawatts. “Onde vamos encontrar outros 14 terawatts?”, perguntam os especialistas da empresa em um relatório recente. “Teríamos de construir uma nova planta de mil megawatts todos os dias pelos próximos 40 anos.” A solução para a maioria dos especialistas é combinar geração nova de energia – de preferência limpa – com redução de perdas e consumo racional.

Essa combinação tem conquistado um número crescente de defensores, a começar pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Ele colocou os smart grids entre as prioridades tecnológicas do seu plano de recuperação econômica. O pacote, aprovado no final de fevereiro pelo Congresso, prevê mais de US$ 80 bilhões para novas energias e maior eficiência. Desse total, até US$ 5 bilhões devem ir diretamente para as redes inteligentes. Entre as metas está instalar mais de 40 milhões de medidores inteligentes. Na Europa, as novas redes são uma das peças fundamentais do programa para reduzir 20% do consumo de energia até 2020. Uma pesquisa divulgada pela Ventyx, empresa de softwares para o setor de energia, indica um apoio crescente à tendência também na iniciativa privada. Em entrevistas com executivos de 24 gigantes do setor de distribuição de energia no mundo, 87% disseram ter separado recursos para as redes inteligentes em seus orçamentos de 2009. A consultoria Deloitte estima que o faturamento de fornecedores de redes inteligentes será, apenas nos Estados Unidos, de US$ 25 bilhões neste ano, e diz que as redes inteligentes estão se tornando o novo boom do mundo da tecnologia. Não por acaso, companhias como Google, IBM, Oracle, SAP e Cisco estão mergulhando no tema. O Google, por exemplo, vai se unir à GE e investir uma fortuna para desenvolver softwares. Em fevereiro, a empresa revelou um projeto piloto chamado PowerMeter, que inclui um portal no qual o consumidor vê pela internet como está usando a eletricidade e programa seus gastos. Para decolar, porém, o projeto depende que a rede seja toda modernizada.

O maravilhoso mundo novo da energia inteligente inverte inclusive os modelos de negócios existentes. O consumidor poderá se tornar um fornecedor e a eletricidade, armazenada em grande escala. Atualmente há uma virtual impossibilidade do uso da chamada microgeração. Não existe a capacidade de gerenciar a entrada de milhares de novas fontes na rede, como os painéis solares colocados em cima das casas. Para Cyro Boccuzzi, da consultoria Andrade & Canellas, essa será a grande tendência na Europa e nos Estados Unidos em um futuro não muito distante. Outra possibilidade é o armazenamento de energia. As usinas hidrelétricas são uma das poucas alternativas para se guardar energia em grande escala. Essa é a função dos reservatórios de água. Mas essas reservas dependem das chuvas e não são abundantes no planeta. Um exemplo de armazenamento no futuro é o dos carros elétricos. “As baterias dos carros híbridos poderão ser usadas dentro de toda a rede”, diz Elton Tiepolo, da IBM. Como explica, na hora que o carro é ligado na tomada, ainda com carga na bateria, ele poderia jogar energia na rede, aumentando o volume disponível na hora de pico. A bateria do carro só passa a ser carregada no meio da noite, quando a demanda geral cai. Essa proposta já está sendo testada com carros híbridos na SmartGridCity.

COMENDO POEIRA

No Brasil, a ideia de smart grid está engatinhando. “Aqui, esse processo ainda é lento e começou com a medição eletrônica”, afirma Álvaro Dias Júnior, vice-presidente executivo da Landis+Gyr, uma das líderes do mercado de medidores. “A principal motivação das distribuidoras brasileiras são as perdas com fraudes de energia”, diz. Segundo cálculo da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), as perdas com desvios, os chamados gatos, e os erros de medição chegaram a R$ 5,5 bilhões em 2007. Há hoje mais de 55 milhões de medidores no Brasil. Desses, os eletrônicos não passam de 500 mil. A falta de uma definição pela Aneel sobre a regulamentação dessa parte do serviço está segurando o processo. Algumas das grandes empresas de energia, como Cemig, AES Eletropaulo e Celg (Companhia Energética de Goiás), têm programas internos para avaliar projetos, mas não há avanços concretos, como nos Estados Unidos ou na Europa. “Poucas distribuidoras de energia no Brasil avaliaram internamente a aplicação do conceito de smart grids, principalmente por envolver recursos extraordinários”, diz Antonio Marcos de Campos, professor da Universidade Mackenzie de São Paulo e coordenador de um dos principais grupos de estudo sobre o assunto no Brasil.

No resto do mundo também existe essa dupla barreira para a evolução das redes: os investimentos altos e a falta de regulamentação. Um problema adicional é que ninguém sabe ao certo como as novas tecnologias vão afetar os negócios. O investidor americano especializado no assunto Nick Gogerty calcula que os ganhos de eficiência podem reduzir o faturamento das empresas do setor elétrico americano em até 10%. Além disso, um sistema novo pode levar ao abandono de partes importantes da estrutura atual. “O problema é que nenhuma empresa de energia quer pagar pelo privilégio de reduzir o consumo do produto que vende”, diz Gogerty. Por isso, a regulamentação tem um papel central. As empresas precisam ser recompensadas pela eficiência. No caso brasileiro, existem outras barreiras. Há, por exemplo, uma pressão menor do ponto de vista ambiental. Como 85,5% da eletricidade é gerada por hidrelétricas, que não soltam CO2, essa não é uma questão. O país também tem ainda a alternativa de construir pequenas usinas hidrelétricas e usinas de biomassa em grande escala. Para completar, o principal foco governamental são as grandes obras de geração, como as hidrelétricas do rio Madeira, em Rondônia. Mauricio Tolmasquim, presidente da Empresa de Pesquisa Energética, ligada ao Ministério de Minas e Enegia, diz que, para o governo, essa discussão faz parte dos estudos sobre eficiência energética, mas que não há hoje nenhum grupo do ministério investigando o assunto. “Estão ainda no começo desse processo. Não corremos o risco de ficar para trás”, diz. Há controvérsia. “O risco é não aproveitarmos uma excelente ideia que ajudaria no crescimento do país”, afirma Campos, da Universidade Mackenzie. Para ele, o risco é o Brasil perder a onda tecnológica. No final deste ano, quando o projeto de Boulder começar a mostrar os primeiros resultados, será possível saber se há razões para preocupação.

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